FALE CONOSCO

Publicações

A lei Nº 13.989/2020 e o exercício da Telemedicina

13 maio 2020 - 15:11 Publicado por: Lucimer Coelho

Este texto versa sobre a Lei nº 13.989/2020, que dispõe sobre o uso da telemedicina durante a crise causada pelo coronavírus (SARS-COV-2), em vigor desde o último 16 de abril.

Segundo o Artigo 1º da Lei, a autorização para a mediação da telemedicina é temporária, isto é, “enquanto durar a crise ocasionada pelo coronavírus (SARS-CoV-2)” e, de acordo com o Artigo 2º, seu uso é autorizado em caráter emergencial, ou seja, em caráter circunstancial em razão da crise gerada pela pandemia.

Embora a telemedicina tenha sido implementada no Brasil como uma medida alternativa, temporária e emergencial para solucionar a crise sanitária promovida pela pandemia decorrente do avanço mundial do vírus acima nomeado, observa-se que essa modalidade de oferta da medicina tem muito mais a oferecer, pois por meio dela os profissionais da saúde têm demonstrado poder alcançar um maior número de pessoas/pacientes e nos lugares mais distantes e/ou de difícil acesso.

Elenca-se como outros benefícios a redução dos custos com saúde, no que se incluem o transporte e a estadia, que seriam suportados por muitos dos consumidores (pessoas/pacientes) caso tivessem que se deslocar de suas residências para obter um atendimento médico; a segurança alcançada, visto que a modalidade está permitindo que se evite o contato e, por conseguinte, o contágio pelo coronavírus; e, finalmente, a disseminação do conhecimento, o que proporcionará um avanço ainda maior da medicina.

No artigo seguinte, o legislador traz sua compreensão do objeto da Lei em questão: “Entende-se por telemedicina, entre outros, o exercício da medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde.” (Art. 3º) 

Nessa definição fica excluído o entendimento de uma atividade meramente coadjuvante assim como fica ampliada a compreensão trazida pela Resolução CFM nº 1643/2002 e pela Portaria MS nº 467/2020. Compreende-se, portanto, que o Artigo 3º da Lei nº 13.989/2020, engloba todo o avanço tecnológico e possibilita a utilização de todo o conhecimento em tecnologia disponível, desde aparelhos computacionais até os equipamentos eletrônicos e mecânicos.

Assim, a Lei dá maior efetividade à telemedicina com vistas à promoção da saúde e, assim, vai ao encontro dos preceitos constitucionais, como consta do Artigo 196 da Constituição Federal: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. 

Na perspectiva do acesso universal e igualitário, seu Artigo 5º admite a atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da iniciativa privada na oferta de saúde por meio da modalidade em questão. Sendo assim, na  hipótese de as instituições de saúde da rede estatal não comportarem a demanda, o Estado pode fazer uso dos serviços oferecidos pela iniciativa privada conveniada com o SUS a fim de aumentar e complementar a sua atuação em favor da saúde da população.

Nos termos da Portaria MS nº 467/2020, anteriormente publicada, a telemedicina abarca toda a tecnologia da informação, pois contempla “o atendimento pré-clínico, de suporte assistencial, de consulta, monitoramento e diagnóstico, por meio de tecnologia da informação e comunicação, no âmbito do SUS, bem como na saúde suplementar e privada.” (Port. MS nº 467/2020, Art. 2º). 

Já o Conselho Federal de Medicina (CFM) restringe sua abrangência ao conceituá-la como “[…] o exercício da Medicina através da utilização de metodologias interativas de comunicação audio-visual e de dados, com o objetivo de assistência, educação e pesquisa em Saúde.” (Res. CFM nº 1643/2002, Art. 1º) As “metodologias interativas de comunicação áudio-visual e de dados” referem-se apenas aos meios físicos usados (hardware) e, portanto, não alcançam a tecnologia que pode estar abarcada ou utilizada.

Trata-se, como se vê, de um conceito bem conservador, pois o CFM, ao não vislumbrar todas as possibilidades e o alcance oferecidos pela telemedicina para a prestação dos serviços de saúde, a reduz a três áreas importantes da área – a assistência, a educação e a pesquisa em Saúde –, o que não é tão abrangentes como poderia ou deveria ser.

Cabe, agora, uma discussão indicativa sobre o exercício da telemedicina, objeto tanto da Lei em questão, a 13.989/2020, quanto da Resolução CFM nº 1642002. Essa atividade, entendida como o exercício da medicina com a mediação de tecnologias, deve ser regida pelas disposições da Lei nº 12.842/2013, que ordena, inicialmente, sobre o objeto de atuação do médico e, em seguida, sobre sua atitude no exercício da medicina. De acordo com o Artigo 2º, o “objeto de atuação do médico é a saúde do ser humano e das coletividades humanas” e, em seu favor, o médico deve agir “com o máximo zelo, com o melhor de sua capacidade profissional e sem discriminação de qualquer natureza.”

Segundo a nova Lei, este exercício pode, agora, ser praticado com a mediação de tecnologias. Isso significa, se considerada a Resolução CFM nº 1643/2002, que poderá ser utilizada toda a tecnologia da informação atualmente disponível, desde que nesse uso sejam observados os requisitos de segurança estabelecidos em conformidade com os padrões normativos e éticos usuais do atendimento presencial.

A infraestrutura tecnológica a suportar essa modalidade de oferta de saúde é descrita no Artigo 2º da mesma Resolução, ipsis litteris:

Os serviços prestados através da telemedicina deverão ter a infraestrutura tecnológica apropriada, pertinentes e obedecer as normas técnicas do CFM pertinentes à guarda, manuseio, transmissão de dados, confidencialidade, privacidade e garantia do sigilo profissional. [grifo nosso].

Além disso, esses serviços podem ser prestados por pessoas físicas ou jurídicas, cada um em seu âmbito de atuação e, ao mesmo tempo, complementando-se. Pessoas físicas referem-se a médicos, isto é, a pessoas graduadas em curso superior de Medicina reconhecido pelo Ministério da Educação, conforme determina a Lei nº 12.842/2013: 

A denominação ‘médico’ é privativa do graduado em curso superior de Medicina reconhecido e deverá constar dos diplomas emitidos por instituições de educação superior credenciadas na forma do artigo 46 da Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996, […].

A atividade desse profissional da saúde é definida, pelo CFM, como “todo procedimento técnico-profissional praticado por médico legalmente habilitado e dirigido” para duas áreas: a promoção da saúde e a prevenção, seja ela primária (ocorrência de enfermidades ou profilaxia), secundária (evolução de enfermidades ou execução de procedimentos diagnósticos) e/ou terciária (invalidez ou reabilitação dos enfermos) (cf. Res. CFM nº 1627/2001, Art. 1º).

No outro âmbito da oferta da telemedicina encontram-se as pessoas jurídicas. Segundo o Artigo 5º da Resolução CFM nº 1643/2002, as credenciais da pessoa jurídica para a prestação desse serviço, são: a responsabilidade técnica de um médico regularmente inscrito no Conselho e quadro funcional constituído de médicos, bem como seu registro no Cadastro de Pessoa Jurídica do Conselho Regional de Medicina do estado onde a referida pessoa jurídica esteja situada. 

Essas medidas, tanto no âmbito da pessoa física quanto no âmbito da pessoa jurídica, têm a função precípua de garantir o sigilo e a confidencialidade na relação médico-paciente, além da qualidade de atendimento e segurança das partes, evitando-se fraudes e o vazamento de informações que são de interesse único do médico e do paciente.

Como já apontado, a Lei nº 13.989/2020 autoriza o uso da telemedicina apenas em caráter emergencial e enquanto durar a crise ocasionada pelo coronavírus (SARS-CoV-2). Apesar desse caráter (temporário e emergencial), os médicos não podem eximir-se de suas responsabilidades de prestar todos os esclarecimentos devidos ao paciente acerca das restrições impostas por este modelo de prestação de serviços médicos. Assim, nos termos de seu Artigo 4º, é dever do médico esclarecer ao paciente todas as limitações inerentes ao uso da telemedicina, considerando a impossibilidade de realização de exame físico durante a consulta.

No Artigo 5º, da Lei em comento, fica estabelecido que a prestação de serviço nessa modalidade de medicina deve seguir os padrões normativos e éticos habituais do atendimento presencial, inclusive em relação à contraprestação financeira devida pelo serviço prestado. Aqui o legislador prevê possíveis embates judiciais pelo custeio ou pagamento dos serviços prestados e se antecipa indicando as responsabilidades: o ônus da prestação de serviços médicos através da telemedicina cabe ao seu prestador, seja ele o público ou o privado. 

Dessa forma, não cabe “ao poder público custear ou pagar por tais atividades quando não for exclusivamente serviço prestado ao Sistema Único de Saúde (SUS)” (Lei 13.989/20020, Art. 5º). Isso significa que o governo não se responsabilizará pelas despesas decorrentes da prestação de serviços de telemedicina oferecida na rede privada, pois não há participação do governo e as instituições que prestam serviços particulares têm fins lucrativos e só atendem pacientes por meio de pagamento direto.

Conclui-se esse texto com três observações. Apesar do caráter temporário e emergencial da implementação da telemedicina no Brasil, a Lei nº 13.989/2020 veio tanto para solucionar o vácuo regulatório existente, quanto para firmar conceitualmente o que, de fato, seja a prestação de serviços de telemedicina. 

Em segundo lugar, a Lei veio definir os padrões normativos e éticos que devem ser utilizados nesse tipo de atendimento e delimitar as responsabilidades dos custos, o que traz segurança para todos os envolvidos, ou seja, para a sociedade de forma geral, como também para os profissionais da saúde, pois cada parte envolvida sabe exatamente o que dela se espera no exercício da medicina mediado por tecnologias.

E, finalmente, o exercício da Lei vem deixando claro que cabe à autoridade competente em seus diversos níveis – o governo, o CFM etc. – a responsabilidade de  avaliar a eficácia dos serviços de saúde prestados por meio da telemedicina, considerando itens como a) os dados decorrentes e colhidos de sua atuação na atual pandemia, e b) os horizontes abertos pela necessidade ora imposta que levou a saúde pública e privada a criar meios alternativos de socorro a todos os cidadãos que dele necessitem, de forma eficiente e segura.

 

Deseja saber mais? Fale com a nossa equipe!